Hora do Duelo

Conto: As Seis Forças

Hora do Duelo
Hora do Duelo

Recentemente conheci o dice game nacional “Duelo de Dados”. Criado pelo capixaba André Luiz Negrão, o jogo é fácil, barato e acessível para vários tipos de público, além de ser divertidíssimo!

Empolgado com o vídeo de demonstração (esse aqui), me veio um daqueles surtos criativos inexplicáveis, e em pouco mais de duas horas durante uma madrugada insone, escrevi o conto As Seis Forças, que você lê abaixo (ou se preferir, pode baixar nesse link)

Duelo de Dados é um jogo onde magos se enfrentam controlando os seis elementos – Fogo, Água, Ar, Terra, Luz e Sombras – para ativar Medalhões de magia e causar dano e efeitos ao oponente. Usei um pouco de liberdade poética para escrever o conto, pois o universo e leis da magia em Duelo de Dados não foram definidos.

Ainda não comprei por falta de grana, mas devo remediar  isso em breve! E se vocês gostaram do conto, falem aí nos comentários que eu escrevo mais nesse universo!

P.S: Duelo de Dados já está com uma promoção super bacana! Confere lá na página do Facebook!


“Caminhei durante vários dias pelo Deserto Púrpura. Meus pés claudicantes obrigados a se colocar um diante do outro por várias horas sem fim. As noites eram como a moldura desse quadro de terror. A fome e a sede eram tintas e paletas com as quais essa tela agonizante foi pintada. E o sol ferveu tanto minha nuca que eu esperava insanamente esbarrar na borda do hipotético quadro em que eu havia me perdido.

Só que eu não estava em um quadro. Era tudo real.

E eu não estava perdido.

“Sempre em frente na direção do poente”, dissera o velho mercador em Bharzal, e era isso que eu estava fazendo. Depois de tanto tempo caminhando, o que me mantinha em pé eram as altas dunas, cujas areias perdiam o tom púrpura conforme subiam, se transformando num mar de brancura. Elas me enganavam. Por causa delas, minhas pernas tremiam em cãibras nas subidas, mas cada vez que uma delas assomava no horizonte causticado, era como um oásis: seja porque me protegeria do sol do fim da tarde, seja porque atrás delas estava a promessa de terminar minha jornada.

Mas bastava chegar ao topo para ver… nada. Apenas areia.

Ali naquele ermo, eu não sentia a ligação. Era como se o ar fosse vácuo, e a terra era de vidro. O sol não ardia, e sim queimava: era ácido em vez de fogo e calor. As únicas que continuavam as mesmas eram a luz e a sombra, mas de uma forma tão poderosa, tão intensa, cada uma a seu modo, que era impossível retirar dali qualquer poder. Senti que se tentasse, elas me dominariam.

Foram três dias que pareceram meses.

Em algum lugar na minha memória, sabia que os seres vivos mantinham a chama da vida acesa em seus corpos enquanto não fossem submetidos à “regra dos três”:

Três minutos sem respirar.

Três semanas sem comer.

Três dias sem beber.

Duas luas passaram como cometas diante de meus olhos, e eu não sabia se viveria para ver uma terceira. Contudo, em vez de me mostrar uma saída, as planícies de areias doentias eram apenas uma coleção de escarpas de rocha e sal.

Eu procurava uma torre


Aramark era uma renomada escola de Elementalistas. Uma das poucas que se dedicavam ao estudo de todos os elementos e suas iterações, e não se focavam em apenas um. Também era uma entre mil que não exigia pagamento financeiro para ser frequentada. Mas o preço que Aramark cobrava era alto: somente aqueles capazes de cruzar o Deserto Púrpura eram admitidos. Os que eram recusados simplesmente morriam.

Mas como saber se você estava preparado para Aramark?

Fácil: Atravesse um deserto e descubra.

Claro, se estou contando essa história hoje, é porque sobrevivi. Venci as infindáveis areias lilases, e hoje faço isso frequentemente e com um sorriso no rosto. Mas aquela primeira vez, aqueles três dias no deserto me prepararam, mesmo sem saber, para o que viria em seguida. Hoje tenho consciência de que se Aramark ficasse no meio da cosmopolita Bharzal, eu não teria sido admitido.

Em minha chegada, não tive nenhum sinal, nenhuma revelação. Eu apenas continuava em frente, quase me entregando de vez nos braços do destino, protegendo meus olhos do sol poente. O medo de mais uma noite escura e fria como tinta começava a toldar minha mente quando tropecei num piso de pedra azul. Só depois de cair de joelhos foi que eu vi Aramark pela primeira vez.

As compridas sombras da torre enfim me abraçaram e antes que o crepúsculo se tornasse realidade, ele veio até mim.

Jael, o Justo


Tenho que me controlar nesse momento para não parar de escrever por aqui. Lembrar-me de Jael, sua sabedoria quase tão grande quanto a longa trança que roçava seus pés… Naquele tempo, sua barba não era tão branca, nem sua fronte tão cinzenta, e mesmo assim ele já era renomado por todo o continente.

Tudo o que eu tinha ouvido sobre aquela velha torre perdida tão a oeste era que apenas os mais bravos e resistentes chegavam até ela depois de vencer as areias do Deserto Púrpura. Os responsáveis por um feito tão grandioso eram recebidos como príncipes: criados lavariam seus cabelos com óleos perfumados e tratariam de seus pés cansados; os mais velhos comporiam versos em nome de sua coragem, os mais novos sentariam à sua volta, esperando poder compartilhar pelo menos alguns momentos ao seu lado. Por um breve instante, ansiei por isso tudo. Levantei-me cambaleante, porém decidido.

Até que Jael me fez voltar a terra com um empurrão.

– És um servo? – perguntou-me com sua voz que era ao mesmo tempo suave como mel e firme como aço. Sua voz ainda era firme naquele tempo.

– Não – respondi confuso – Vim para aprender. Venci o deserto.

– Se não és um servo, és um Senhor. A quem comanda?

– A ninguém. Não sou servo nem senhor. Sou apenas um estudante de magia. Senhor – acrescentei ao perceber de quem se tratava.

– Dizes que venceu um deserto. Qual?

Aquilo terminou por me confundir. Será que eu estava no lugar correto? Será que aquela torre por onde os últimos raios de sol daquele dia incidiam em belos vitrais nos andares superiores era a escola de magia? Ou teria eu caído num tipo de sanatório? Mesmo com meu corpo e cérebro clamando por algo que me saciasse a sede, tentei continuar a conversa de modo racional:

– Esse que se encontra às minhas costas. Vim por ele por três dias e duas noites.

Jael olhou longamente por cima de minha cabeça, como se algo atraísse seu olhar. A sombra de sorriso passou fugazmente por seus lábios cerrados, mas pouco depois voltou sua atenção para mim.

– Tu não o venceste. Apenas o suportaste. Ele tem séculos de idade. Achas mesmo que sobreviver nele por algumas horas te fariam senhor do deserto?

– Senhor! – supliquei desesperado – sou apenas um tolo. Vim de longe para aprender nesse local. Perdoe minhas palavras de soberba. Não sou um senhor. Sou apenas um servo.

Só então recebi o primeiro gesto de cordialidade daquele que viria a se tornar meu amigo e mestre. Jael ergueu-me gentilmente, bateu a areia de meus ombros e falou, olhando profundamente em meus olhos:

– Aqui não é lugar para servos. Controlar as Seis Forças é um trabalho apenas para Senhores. Se és um senhor, prove. Se é um servo, estás no lugar errado: Voltes por sobre tuas pegadas na areia quente.


­­­­­­­­­­­­­

– A lei do deserto é inexorável – continuou Jael, perante meu silêncio atônito. – Pisar nessas pedras azuis significa que escapastes do seu jugo. Mas as leis do deserto são imutáveis, e continuam à tua volta, esperando para cair sobre ti novamente. O deserto é paciente.

Sentia-me cada vez mais fraco, e embora a natureza fosse morta ali, entendia que se aproximava um tipo qualquer de teste. Como provar que eu era um Senhor das Seis Forças ali, no meio do nada?

Institivamente, eu sabia que Jael não me ajudaria. Estava por minha própria conta mais uma vez. Era a hora.

Fixei a mente na luz indecisa que o sol ainda derramava sobre o mundo. No alto da ominosa torre diante de mim, os vitrais coloridos espalhavam suas matizes pelo ar. Usei o pouco da energia que me restava para torcer um desses feixes. ele se inclinou e se arrastou lentamente pelo piso azul, um fraco padrão amarelo, quase invisível no crepúsculo.

– Luz – Jael acenou, aprovando – A luz é necessária para que enxergar, mas luz em demasia também nos cega. O deserto era senhor da luz até minutos atrás, mas tu tomaste para ti o fardo.

 Empolgado pelo sucesso de minha tentativa, imprudentemente colhi os últimos raios daquele sol que me castigou por tanto tempo e os concentrei na minha mão. Uma chama bruxuleou por um breve momento antes de desaparecer, deixando uma leve, porém dolorida queimadura entre meus dedos.

– Fogo. O deserto te envolveu, e tomou do sol o domínio desse elemento. Tu o tomaste de volta. Muito bem.

Quando as chamas se desvaneceram completamente, o sol foi com elas. A escuridão que me oprimia voltou, mas dessa vez eu sabia o que fazer.

Levantei o braço fui baixando aos poucos, bem devagar. A cada centímetro que ele descia, a escuridão aumentava, como se alguém estivesse fechando vagarosamente os olhos do mundo. Mas eu era o Senhor. Só permiti que a escuridão chegasse onde ela fosse capaz de me proteger sem me cegar, de me envolver sem me amedrontar.

– Sombras – a barba de Jael não conseguia mais ocultar seu sorriso – tu venceste o medo de algo que tem muito mais medo de ti.

Baixei a cabeça e me concentrei no vento. Queria sentir novamente seu beijo suave, e logo seus dedos macios penetravam em meus cabelos molhados de suor.

– Ar. As correntes se movem ao teu encontro, empurrando o vácuo para longe. Elas te reconhecem e te procuraram desde que partiste. E logo atrás delas vem…

– Água – completei, olhando para cima, para o céu escuro agora cheio de nuvens avermelhadas. Um após outra, as grandes gotas de chuva batiam no piso de pedra como espadas se chocando contra armaduras. Jael também percebeu.

– Essa é a música da batalha. O hino dos combatentes. Tu venceste até aqui. Mas o vidro e a poeira não te darão vida. Tu não dominas a terra.

– Agora entendo suas palavras – disse eu, enquanto a chuva emplastrava meus cabelos e ensopava minhas roupas – mas o deserto não tem vida, mesmo que eu peça ou ordene. Três dias vaguei por ele e não senti a conexão. Embora eu diga a você que domino a terra, o deserto me impedirá de provar. Ele quer que eu falhe.

– Ele é incapaz de te impedir – Jael voltou a ficar sério – Você nunca será Senhor do deserto, pois ele é senhor de si mesmo. Assim como tu – ele apontou para algo atrás de mim, me fazendo virar rapidamente.

E lá estava ela: seu caule começava espesso e se esticava do topo de uma duna para o céu, apontando para as estrelas. Suas pétalas eram mais vermelhas que as brasas de uma fogueira, e suas folhas tinham o verde profundo das selvas.

Uma Rosa do Deserto.

Avancei cuidadosamente até onde ela estava, e a colhi. Voltei para perto de Jael, mas sem conseguir tirar os olhos da flor.

– A terra te recebe. Há vários anos ninguém desafiava o deserto e vencia – o velho mestre tirou a rosa de minhas mãos e envolveu-me num abraço tão caloroso quanto o seu olhar.

– Seja bem vindo à Aramark, Braed. Eu estava te esperando. Temos muito o que conversar”.

FIM (ou continua…?)