Guerra dos Tronos RPG – A polêmica tradução da Jambô

Dos RPGistas é a Fúria!
Dos RPGistas é a Fúria!

Na última semana, tivemos a fase final da excelente pré-venda da versão brasileira de A Song of Ice and Fire RPG – trazida até nós pela Jambô Editora. Entre atrasos no envio dos códigos de rastreio, livros chegando apenas DOIS DIAS após a postagem (alguns primeiro que o próprio código), livros chegando em pleno DOMINGO, ouso afirmar que não houveram atrasos significativos na entrega, e a maior parte da galera já deve ter recebido. Mas que foi esquisito, isso foi…

A verdadeira surpresa dos jogadores começou quando abriram os livros.

Brados ensandecidos de “o livro é feito com papel-jornal!” foram logo esclarecidos pela editora: O nome do papel é “Chamois Bold“, mais caro que o manjado Off-Set, e bem parecido com o papel usado nos romances da saga, embora o do RPG seja mais grosso, resistente e áspero que os dos livros da Leya. De acordo com minhas pesquisas, o Chamois é um papel que favorece a leitura por não refletir muita luz. O “bold” significa que ele é mais resistente sem aumentar muito o peso. E na prática, atesto ambas as afirmações e assino embaixo!

Mas o que MUITA gente tem reclamado por aí, nas redes sociais (como no grupo no Facebook) e no próprio fórum da Jambô, são as escolhas do tradutor – o já consagrado Leonel Caldela – com relação à nomes, topônimos e outros termos, pois eles diferem da tradução “oficial” realizada por Jorge Candeias na Leya.

OS FATOS

Nomes se traduzem? Nomes próprios? Devo procurar significado para cada palavra no texto, mesmo que ela não tenha correspondente em Português? E se tiver correspondente, devo traduzir?

Essas perguntas têm tantas respostas quanto existem tradutores. Há vertentes que defendem a manutenção de termos e nomes em sua língua natal. Outras preconizam que o tradutor deve traduzir tudo o que pode ser traduzido. Há ainda meio-termos, onde o tradutor pode procurar termos adequados se houverem, criar neologismos, transliterar… enfim, é assunto extenso, que divide o meio acadêmico até hoje.

Se você pegar o livro “A Guerra dos Tronos”, da Editora Leya, Jorge Candeia nos brinda com uma breve epílogo sobre seu trabalho nas Crônicas. Cito alguns trechos (e você pode conferir a íntegra dele AQUI no blog do tradutor):

Uma das regras básicas da tradução dita que nomes e topônimos não se devem traduzir (…) Aqui, optou-se por violá-la até certo ponto (…) a tradução de nomes é assunto delicado: não convém que, ao ser traduzido, o nome perca credibilidade e mine a suspensão da descrença necessária para apreciar a história. Assim, traduziram-se apenas aqueles nomes para os quais foi encontrado um equivalente viável em português (…)

(…) O caso dos apelidos das personagens é semelhante, mas o critério foi outro, pois só uma minoria desses apelidos vem num inglês provido de significado (Stark, Snow, Flowers e poucos mais), e não faria grande sentido ter na mesma história, e nos mesmos reinos, as famílias Targaryen, Lannister e Arryn, e Forte, Neve e Flores (…)

(…) Naturalmente, tudo isto é discutível. Numa tradução poucas são as coisas que não o são.

Vemos que Candeias, apesar de ter argumentos convincentes para justificar as escolhas feitas por ele, reitera algumas vezes os “critérios”, chegando no final à citar a “discussão” que pode haver à respeito de uma tradução. Em suma, os termos que conhecemos desde A Guerra dos Tronos, foram frutos de vários anos de estudo do tradutor sim, mas foram fruto também de ESCOLHAS, o que implica que havia mais de uma forma de resolver esse impasse, violando as regras quando fosse (ou se achasse) necessário.

Estão acompanhando até aqui? Ótimo!

A OPINIÃO DOS RPGISTAS

Ao se traduzir os nomes dos bastardos – Snow, Stone, Flowers, Rivers, entre outros – a Jambô gerou uma onda de descontentamento (e de risos – quem teria medo do JON NEVE?). Alguns RPGistas afirmam que é incongruente com a proposta de trazer esse RPG pra cá para se aproveitar da base de fãs e depois mudar tudo. Outros chegam a extremos ao dizer que o livro é imprestável, incompleto, que foram enganados, que compraram gato por lebre, etc. Cada um tem sua maneira de encarar esse problema. Uns de maneira mais enfática, outros mais sóbrios. O debate é sempre importante.

Por outro lado, vi argumentos defendendo que os nomes bastardos não ficam tão estranhos assim – afinal, eles foram feitos para mostrar que bastardos são simplórios, e “Neve”, “Areia” e “Rocha” realçam bem esse significado.

O que eu vi na maioria dos casos, são pessoas defendendo a máxima que “nomes não se traduzem”. Mas aí eu pergunto: Essa máxima valeria para o tradutor Jorge Candeias também? Então porque “Rochedo Casterly” não ficou “Casterly Rock”, por exemplo?

Opção. Pura e simplesmente.

A MINHA (NEM UM POUCO IMPORTANTE) OPINIÃO

Não sou especialista no assunto (na verdade, não sou especialista em NADA), mas sinceramente? Eu gostei da tradução. Ela é eficiente no que se refere à explicar as regras e o cenário de Westeros, e tirando um ou outro problema de sintaxe (como palavras e/ou pronomes repetidos na mesma frase), eu achei a tradução na média (o que significa que levando em conta as traduções desastrosas que víamos no século passado, está razoavelmente boa). É visível que Caldela utilizou a simplicidade, traduzindo da maneira mais direta possível, o que gerou parte do desconforto dos compradores (Porto DO REI, ao invés de Porto REAL, por exemplo), e podemos encontrar parâmetros que coincidem com o discurso de Candeias, quando ele fala em não misturar termos traduzidos e não traduzidos. Caldela apenas traduziu absolutamente TUDO.

Sou muito mais prático do que teórico; essa falha – não deixa de ser uma falha, na medida que foge da tradução a qual estamos acostumados – de pouco afetará minhas mesas ou meus posts: Que diferença faz se Caldela chama os “represeiros” de “árvores sagradas”? Ou “Troca-peles” de “Trocadores de Peles”? Eu vou usar o termo que mais me agrada e pronto. Garanto que ninguém irá nas minhas mesas me obrigar a usar “Ellaria Areia” (isso é um trava-línguas!) só porque está no livro.

E você? O que achou? Se arrependeu de ter comprado? Está feliz da vida com Davos Pronto-ao-mar? Ou quer apenas se divertir?

Fale aí nos comentários!

28 comentários sobre “Guerra dos Tronos RPG – A polêmica tradução da Jambô

  1. Algum dos reclamões pensou no fato de que usar a tradução do Jorge Candeia implicaria em pagar direitos autorais à Leya? Provavelmente não.

    1. E pagaram à Devir pelo uso do termo “atroz” para os lobos, também.😀

      Veja, estou apenas atentando para o fato (sem inferir mérito negativo ou positivo) de que a editora apenas *quis* usar outros termos.

  2. Ah, não, Rodrigo. Esse argumento de “na mesa eu uso como quero” não tem relação com criticar o livro, máh. NADA até aqui justifica a escolha de Caldela. Foi uma decisão de tradução imatura e exageradamente pessoal (sem considerar uma horda de fãs).

    Meus centavos.

  3. Tudo isso que você falou é opção do tradutor de fato. Mas a tradução está bem fraca, não nos termos. mas no quesito de semântica mesmo.

    1. Livros de rpg costumam ter uma linguagem bem simples mesmo. Pode não ser questão da tradução, só da qualidade do texto original.

  4. Na minha opinião o que importa é o jogo. Se o pessoal quer usar ou não os nomes traduzidos pela Jambô é questão pessoal. Lógico que alguns soam mais engraçados que os outros. Não vou negar que Jon Neve ficou estranho, mas isso não impede ninguém de jogar. Se não curtiu a tradução, use os nomes dos livros. Não influencia em nada nas regras do jogo. Deixem o mimimi de lado e se divirtam jogando.

  5. Se era esse o caso que pagassem, Renato. Não entendo a lei nesse sentido, mas não entendo que economizar nesse caso seja prático com os fãs. Sou fã da Jambô, mas se ficou mesmo assim (não vi o livro) foi triste.

  6. Até hoje ninguém me fez chamar a Fade de Dragon Age de Turvo =P Acho que o que resume toda a “polêmica” é “haters gonna hate”.

    Mas Davos Seaworth virou Davos Pronto-ao-mar ? Se for, acho que não sei mais falar inglês…

  7. Prefiro nomes no original, até porque acredito que certas coisas (especialmente conceitos e qualidades, coisa comum em nomes) são difíceis de traduzir. Ainda não li então não posso avaliar qualquer coisa além disso. Sei que esse era um livro que eu queria a muito tempo e vai ser bom ter essa linha de RPG no Brasil. Torço para que a tradução não seja um problema e as críticas tenham sido só um exagero dos fãs.

  8. Me incomodou um pouco, mas não é problema. Eu sei que Porto do Rei é Porto Real e que Jon Neve é Jon Snow. Também uso termos originais em Dragon Age e na campanha que estou mestrando ninguém usa “Inverno Remoto” e sim “Neverwinter”. Não vejo isso como um problema mesmo.

  9. Não vou deixar de ler ou jogar por causa disso, então não acho que seja um problema, mas acho que foi vacilo sim. Na minha opinião escolheram mal. Curioso é que não faz muito tempo eu vi alguns episódios da primeira temporada da serie dublados e eles também modificaram alguns termos que me doeram os ouvidos…

    Acho que o caso é que depois de 5 livros gigantes, eu me acostumei demais com a tradução da Leya ai não tem jeito, qualquer coisa diferente vai acabar incomodando.

    de qualquer maneira, fico feliz em ter esse livro aqui no Brasil!

  10. Eu adoro o Caldela, mas também não gostei da tradução do Dragon Age RPG😦 Principalmente o nome de alguns lugares achei que ficou esquisito.

    Na minha opinião, nome de personagem fica no original (não concordei com os nomes traduzidos em harry potter, por exemplo), e nome de lugar/poderes/coisas pode até ser tradução livre, porque importante é soar bem.

  11. O problema não foi traduzirem os termos e nomes, mas traduzir essas coisas quando já existe um trabalho em PT (BR) foi um erro. Até mesmo se eu fosse o autor da obra não gostaria de duas palavras diferentes pra dizer a mesma, até mesmo porque muita coisa é levada na escolha de um termo e a sonoridade com certeza é um deles.

  12. “Na minha opinião o que importa é o jogo. Se o pessoal quer usar ou não os nomes traduzidos pela Jambô é questão pessoal. Lógico que alguns soam mais engraçados que os outros.”

    Faço estas minhas palavras. Alias, não vejo nada de errado, estas discordâncias de tradução são positivas, estão gerando debates produtivos😛

  13. Comentário deixado no fórum da Jambô:

    Recebi o meu hoje e realmente ficou muito tosco ter traduzido alguns nomes. Confesso que ainda não li 1/7 do livro, mas essa escolha foi frustrante para muitos como eu, que já leram os 5 livros em português da série e já tomam a tradução do romance como oficial.

    Não sou especialista em tradução e nem em algo parecido, mas confesso que isso foi um desrespeito com todos os fãs dos romances. Sou grande fã do Leonel, mas desta vez, a meu ver, o trabalho não ficou primoroso, acho que o brilho do livrou de RPG foi ofuscado por essas escolhas de tradução. Me pergunto se ele estaria infringindo algum direito de tradução se utilizasse os mesmos termos utilizados nos romances para cometer tamanho deslize.

    Por que não organizamos uma força tarefa para reunir todos os termos que ficaram diferentes da versão do romances e colocamos tudo em um PDF? Assim faríamos uma errata de fã para fã dos termos traduzidos que não ficaram iguais aos romances.

    1. Pramon, acho sua atitude válida, mostra vontade de fazer ao invés de só reclamar. Mas não acredito que uma errata desse tipo seja útil: todos nós sabemos quem é Jon Neve. Ou Davos Pronto-ao-Mar. Ou Rio Corrente.

      IMO

      1. Confesso que esses eu sei, mas outros não. E não tive contato com os os romances em inglês por minha perícia em Idiomas(inglês) ser quase nula. Quando fui ler o pequeno resumo do livro sobre Westeros me senti lendo um livro em português de Portugal. Desisti e passei para a parte das regras. Mas de qualquer forma vou rabiscar meu livro todo, fazer anotações e depois colocar tudo em um PDF.

      1. Eu dei uma pesquisada na gramática brasileira e cunhei o neologismo Invernescer, que significa o “cair do inverno”, do inglês the fell of the winter. Achei muito porco do tradutor traduzir todos os nomes de lugar e deixar Winterfell. Quebra o clima.

  14. Polemica sempre traz muitos comentários…e aqui vai o meu!
    Eu achei estranho, quando soube que existia um tal de Jon Neve… mas depois pensei: podiam piorar.. podia ser João das Neves…
    Acho que os nomes bastardos, Neve, Flor, Rocha, Areia, etc, servem na trama para demonstrar de onde aquele bastardo suregiu…qual a região em que ele vive, já que não podemos puxar a linha da qual ele descendem…
    Assim, eu acho que a tradução, se respalda.
    Agora a tradução do nome de Davos, “PRONTO-PRO-MAR” foi um pouco demais, e o resultado saiu horrível.
    De qualquer forma… para todos aqueles que vão jogar, fica minha dica de visitarem meu post que explica a diferença 9existe?) entre warg e troca-pele.
    é um material interessante para ser discutido com o grupo, antes de iniciarem a jornada em Westeros.
    http://drunkwookieblog.wordpress.com/2012/12/14/wargs/

  15. Estava esperando sairem essas resenhas antes de decidir se compro ou não. Decidi que não. Realmente, a maioria das decisões do tradutor é arbitrária, mas uma vez que essas escolhas tenham sido feitas pelo primeiro que publicou no Brasil (no caso pelo Jorge Candeias) acho que deveriam ser mantidas. Não faz sentido mudar nessa altura do campeonado.

  16. O que me pareceu que as traduções não tiveram base, me pareceu que o Caldela não leu nenhum livo do GoT, pois teria visto como é a tradução original. O Livro em si é muito bom! Sistema detalhado, vale muito a pena.

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