Conto – Para Nunca Mais Ter Medo…

 

Quem quer viver para sempre?

 

Como leitor criado com a finada DRAGÃO BRASIL – cuja edição #1 eu comprei NAS BANCAS em 1993 – aprendi a gostar de ficção com os contos lá publicados. E eles iam desde os clássicos que lembravam o mestre Isaac Asimov, quanto as surpreendentes tramas de Roberto de Sousa Causo, a quem pertecem as melhores estórias lá publicadas.

Mas havia uma que me marcara profundamente: Uma em que os personagens tinham um símbolo de infinito tatuado no pulso esquerdo, sinal de que haviam passado pela ressucitação. Me marcou tanto, que essa tatuagem no pulso ainda está na minha “lista de desejos” (um dia, ela sai!). E não me lembrava muito mais desse conto, até que eu o encontrei…

Então, aqui está o conto “Para nunca mais ter medo”, de Fábio Fernandes. Acredito que ele não se importará que eu o publique aqui, afinal, estou dando os créditos bem merecidos. Fiquei muito feliz por ter encontrado essa pérola da FC Brasileira. E espero que o autor continue publicando material de qualidade!

Sem mais, vamos ao conto:

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Para Nunca Mais Ter Medo – Fábio Fernandes

Time is the space
Between you and me (…)
Seal, Prayer for the Dying

Marta era muito bonita viva. Mas conseguia estar ainda mais linda depois de ressuscitada.

Eu estava terminando um café no foyer do Centro Cultural Banco do Brasil quando ela chegou. Os olhos pretos, elétricos, me procuravam feito loucos no meio da multidão que não parava de chegar. Ela hesitava. Pensei em ajudá-la, mas me lembrei do que os médicos costumam recomendar nesses casos: não trate o ressuscitado como um doente. Depois da alta, ele está tão bem quanto qualquer pessoa em sua primeira vida, talvez até mais. Esperei.

E então ela me encontrou. A boca se abriu num sorriso, e seus dentes perfeitos me trouxeram de novo a sensação de normalidade, de que tudo realmente era como antes. Sorri aliviado.

Não resisti à tentação. Assim que ela se aproximou de mim, tomei-a pelas mãos e cantei baixinho, só para ela ouvir:

– Talvez, quem sabe, um dia, pela alameda do zoológico ela também chegará…

– O século trinta vencerá… – ela emendou.

– Ela e tão linda que por certo eles a ressuscitarão – terminei em seu ouvido. E nos abraçamos.

Ela chorou. E eu também. Ressuscitar nunca é fácil.

– Por que não marcamos no zoológico, então? – ela perguntou sorrindo, depois de algum tempo.

– Vamos ter muito tempo para visitar o zoológico – respondi, enquanto a levava na direção do elevador. – Hoje é o dia do Bicentenário.

– Eu não lembrava – ela disse. – Estive inconsciente por uma semana. O período normal é esse mesmo ou eu tive alguma complicação?

– Não, de jeito algum – eu a tranqüilizei. – O seu acidente não danificou o cérebro. Me disseram que o impacto do carro danificou seus pulmões e seu coração. O transplante e o Método foram realizados no mesmo dia. Os outros foram para descanso e adaptação.

– Ah – foi tudo o que ela disse. Seu rosto havia ficado tenso de repente. A cabeça baixa olhava a pequena tatuagem que todo ressuscitado traz no pulso esquerdo: um oito invertido, símbolo do infinito, e, por extensão, da vida eterna, ou quase. Fiquei sem graça. Não devia ter falado do acidente. A morte foi a dela, afinal de contas.

O elevador chega rápido, nosso destino é no segundo andar. Saindo do saguão, viramos à esquerda. Na entrada do salão, uma placa anunciava o nome da exposição que viemos ver: O HOMEM QUE MATOU A MORTE – 200 ANOS DO MÉTODO FRANKENSTEIN.

A sala era uma cópia aproximada do laboratório de Victor Frankenstein. Pendurada no teto, uma cópia do estrado de metal usado para sustentar o protótipo. Nas paredes, cópias dos esboços e croquis usados pelo cientista suíço em suas investigações sobre o uso da eletricidade no estímulo da musculatura e dos órgãos de animais e do corpo humano. Pequenas bancadas repletas de tubos e peças cuja função não consegui decifrar tornavam a visita algo de labiríntico. Marta olhava tudo como quem descobria o mundo pela primeira vez. E era verdade, pensei com meus botões: só dá valor à vida quem a perde. A incidência de acidentes entre os de segunda vida é bem menor que entre os de primeira.

Na parede do fundo, uma série de painéis resumia a vida de Frankenstein. Segundo sua biografia – a autorizada, claro; a não-autorizada, escrita pela feminista inglesa Mary Shelley no início do século dezenove, até hoje causa uma certa espécie – no início ele teria se perguntado: o que foi que eu fiz? Mas a sensação de haver cometido um erro contra as leis da Natureza durou pouco. Como todos os homens de seu tempo, ele já havia visto coisas muito piores em termos de estética: deformidades de toda sorte, naturais ou provocadas por doenças como varíola ou cólera. Seria ridículo esperar que ele fosse se espantar com o aspecto físico de sua criatura, ainda mais depois de todas as cirurgias que havia realizado para juntar suas partes. Logo ele começou a educar a criatura – que batizou de William, em homenagem a seu irmão menor, morto precocemente no mesmo ano de 1794 – e ao final de um ano, após sucessivas cirurgias corretivas para melhorar o aspecto de seu rosto, ele o apresentou à sociedade.

A repercussão foi terrível. Por muito pouco ele não foi enforcado por um crime que muitos tentaram antes dele, mas nenhum havia conseguido: brincar de Deus. Felizmente, o resultado de sua experiência acabou superando todas as expectativas: William cativou os cientistas alemães com sua força e inteligência, e – muito mais importante se Victor quisesse continuar suas pesquisas sem problemas com as autoridades – a nobreza alemã.

Victor era novo: não contava vinte e sete anos quando realizou a experiência com William. Teve, portanto, tempo de sobra para continuar seu trabalho e aperfeiçoar o método que o tornaria famoso mundialmente. Por ironia do destino, entretanto, jamais chegou a ter uma segunda vida: aos quarenta e seis anos, defendendo sua mansão das tropas de Napoleão, morreu no incêndio que destruiu a propriedade. Mas sua obra continuou.

Hoje em dia, entre outros apoios terapêuticos, existe a terapia genética, que clona órgãos só para transplante. Alguns fazem a terapia preventiva, submetendo-se ao rejuvenescimento antes do fim da primeira vida. Mas o método eletromecânico, ou simplesmente Método Frankenstein, ainda é muito popular, principalmente entre as classes menos favorecidas – há anos a Santa Casa de Misericórdia o utiliza – e em casos de acidentes. Se não fosse assim, Ayrton Senna ainda estaria morto e não teria vencido o campeonato de Fórmula Um deste ano. Ou Tom Jobim. Não teríamos tido aquele concerto espetacular no réveillon em Copacabana se a família dele não tivesse concordado em usar o Método.

E inumeráveis outros casos. É o que penso ao sair do Centro Cultural, os dedos tocando quase distraídos a tatuagem minúscula no meu pulso esquerdo. Do lado de fora, o centro do Rio fervilha nessa tarde muito especial de sábado; milhares de pessoas – em suas primeiras, segundas e até terceiras vidas – enchem as ruas do verão de cores e sorrisos. Reconheço várias pessoas, muitas das quais já em suas segundas vidas. Respiro fundo e sorrio, olhando para Marta, que faz a mesma coisa. É como o dia do Juízo Final, todos se reencontrando depois de mortos. Mas aqui na Terra. Pode haver coisa melhor?

Não que seja um mundo perfeito, pelo contrário: a República de Weimar continua em negociações com a Rússia pelos espólios da última guerra, e ainda não vencemos a fome e a doença. A superpopulação é um fantasma mais do que presente agora, mesmo com as colônias na Lua e em Marte. Mas pelo menos um dos quatro cavaleiros do apocalipse já foi derrotado. Os outros também cairão. Tudo a seu tempo. E agora nós temos todo o tempo do mundo.

Um comentário sobre “Conto – Para Nunca Mais Ter Medo…

  1. Muito interessante essa forma de pensar.

    Engraçado que ao longo do conto você começa a acreditar que aquilo é real, e quando acaba que você percebe que tudo foi apenas imaginação.
    O bom também que conforme eu fui lendo e vendo o mundo imortal, eu logo pensei na super população, e ele não deixou de citar nem no final, nem mesmo dos outros 3 Cavaleiros do Apocalipse remanescentes.

    Essa história dá até filme se for bem produzido ^^

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